Download


Login






Esqueceu a senha?

Estatisticas



Free web hostingWeb hosting

23 de setembro ou 22 de outubro? Uma nova abordagem à luz da astronomia Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
22-Nov-2008

ParousiaPublicado na edição do 1º semestre de 2007 da Revista Parousia, do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia.

Resumo: O adventismo tem sido acusado de defender uma data incorreta para o Dia da Expiação em 1844, pois, de acordo com o calendário rabínico, o décimo dia do sétimo mês teria ocorrido em 23 de setembro naquele ano. A primeira parte deste estudo apresenta evidências de que o calendário rabínico atual não representa uma continuidade do calendário judaico praticado nos dias de Esdras e Jesus. Essas evidências consistem em situações documentadas historicamente em que os meses judaicos foram posicionados mais tardiamente que no ciclo rabínico. A segunda parte deste estudo mostra que, ao contrário do que alguns fizeram crer até hoje, a data de 22 de outubro não depende dos caraítas, mas pode ser fundamentada em tabletes babilônicos que atestam o sétimo mês lunar começando com a lua nova de outubro em anos equivalentes a 457 a.C e também na certeza histórica e astronômica de 27 de abril do ano 31 para a data da morte de Cristo. Este artigo revela que a estrutura matemática da profecia requer que o término das 2.300 tardes e manhãs tenha sido em 22/23 de outubro de 1844. A análise astronômica comprova que esse foi o décimo dia do mês lunar.


Parte 1: EVIDÊNCIAS DA DESCONTINUIDADE DO CALENDÁRIO RABÍNICO EM RELAÇÃO AO CALENDÁRIO JUDAICO DAS ÉPOCAS DE ESDRAS E DE JESUS – REAVILIANDO A IMPORTÂNCIA DO MÉTODO DE CÔMPUTO CARAÍTA NA DETERMINAÇÃO DO DIA DA EXPIAÇÃO EM 22 DE OUTUBRO.

INTRODUÇÃO

Um dos alvos recorrentes dos críticos à doutrina adventista do juízo investigativo é a data escolhida pelos mileritas para o dia da expiação em 1844. Ao passo que o calendário rabínico, adotado pela grande maioria dos judeus do mundo inteiro, apontava naquele ano para um 10 de tishiri (sétimo mês judaico; cf. Lv 25:9) em 22/23 de setembro, os mileritas preferiram fixá-lo em 22/23 de outubro1.

Ao chegar à conclusão de que os 2.300 anos deviam terminar em 10 de tishri, por ser neste dia e mês que se realizava a "purificação do santuário", o milerita Samuel S. Snow procurou determinar qual a data gregoriana correspondente ao dia da expiação em 1844. Em seu estudo da cronologia bíblica. Snow descobriu que os caraítas, grupo dissidente do judaísmo, faziam sérias restrições à corrente judaica predominante (a "rabínica"), não somente no apego desta às tradições e interpretações de seus antigos mestres, muitas vezes em desfavor das Escrituras, como também em seu sistema de datação das festividades da religião.

O principal foco de divergência estava no método para se determinar a posição do primeiro mês judaico (abib-nisan) dentro do ano solar. Diferentemente do calendário gregoriano, cujos anos são sempre de 12 meses, o calendário judiaco possui anos de 12 e de 13 meses. A partir de 358 d.C, com a reforma do calendário promovida pelo rabino Hillel II, as intercalações do décimo terceiro mês passaram a ser previamente definidas, por meio de cálculo (o ciclo dos 19 anos), com o que se estipulava a época do primeiro mês e do início do ano religioso.

Os caraítas não concordam com essa prática, pois entendem que a ocasião oportuna para a intercalação do décimo terceiro mês não deve ser determinada por mero cálculo, mas por uma observação empírica do amadurecimento da cevada. A razão para isso será explicada mais adiante.

Confiando no método caraíta, Samuel Snow preferiu descartar 22/23 de setembro como 10 de tishri em 1844, tal como proposto pelo ciclo rabínico, e adotar 22/23 de outubro. Isso porque, em alguns casos, as datas caraítas são um mês mais tardias que as do esquema rabínico. Samuel Snow não contava com uma informação caraíta específica da situação da cevada em Jerusalém para o ano de 18442. Ele se valeu tão somente da noção geral de que, em alguns casos, ocorria a diferença de um mês entre as datas de ambos os sistemas e de que a situação astronômica em 1844 parecia exigir datas mais tardias que as do ciclo rabínico.

A ORIGEM DA DIVERGÊNCIA ENTRE O CALENDÁRIO RABÍNICO E O SISTEMA CARAÍTA

Para que se entenda bem a origem do problema, deve-se ter em mente que o calendário judaico está atrelado concomitantemente à lua e ao sol. À lua, porque ela condiciona o início do mês3, cujo primeiro dia é determinado pela observação do primeiro crescente, ou "primeira visibilidade da lua", que ocorre pouco depois da lua nova astronômica. Ao sol, porque a posição dos meses dentro do ano trópico (ou solar) está condicionada ao amadurecimento da cevada, já que na semana da festa dos pães asmos se devia apresentar um feixe com os primeiros frutos da terra, a fim de que a colheita pudesse ter lugar (Lv 23:4-14). A cevada é o primeiro grão a amadurecer na Palestina, razão pela qual foi escolhida desde cedo para determinar o tempo da celebração da festa dos asmos4. Visto que geralmente o amadurecimento dos frutos ocorre em estações bem definidas, as quais são determinadas pela posição da Terra em relação ao sol, pode-se dizer que a festividade das primícias faz atrelar o calendário judeu ao ano solar5, servindo por isso como uma espécie de "calibrador do calendário".

De regra, o amadurecimento da cevada ocorre no começo da primavera, próximo ao equinócio6, época do primeiro mês judaico. Mas, o início desse mês é variável, assim como o de todos os demais meses, já que é a lua nova que marca o primeiro dia do mês. Quando, por exemplo, o primeiro crescente é detectado na tarde de 27 de março, como foi o caso em 27 d.C., não há qualquer problemas na determinação do primeiro mês, pois esta data não está muito aquém nem muito além do equinócio (que naquele ano ocorreu em 22 de março). Mas, quando a lua nova cai muito antes do equinócio, surge então o problema, como foi o caso do ano 28, em que a primeira visibilidade ocorreu ao pôr-do-sol de 16 de março (o equinócio nesse ano, também foi em 22 de março). Essa é uma época muito precoce, e, portanto muito fria, para que a cevada já pudesse estar madura, razão pela qual não se começou então o primeiro mês, mas houve o acréscimo de um mês adicional, o ve-adar, ficando o dia 1º de nisan para a lua nova seguinte.

O cerne do problema com o calendário rabínico está justamente na determinação dos meses judaicos – se estes devem se posicionar mais cedo ou mais tarde dentro do ano solar.

EVIDÊNCIAS DESFAVORÁVEIS AO CALENDÁRIO RABÍNICO

Nos tabletes de argila da Mesopotâmia, nos escritos do historiador judeu do primeiro século Flávio Josefo, bem como na própria Bíblia, particularmente nos livros de Esdras e de Ester, preservaram-se informações valiosas da antiguidade em que os meses dos calendários babilônico-persa e judaico foram posicionados mais tardiamente que no calendário rabínico.7

Esses dados serão apresentados a seguir, a fim de demonstrar que o ciclo rabínico atual não se harmoniza com os calendários babilônico-persa e judaico das épocas de Daniel, Esdras e Jesus.

Existem atualmente excelentes programas de computador, disponíveis gratuitamente na internet, que produzem as situações do calendário judaico rabínico para qualquer ano numa longa faixa de tempo. Será utilizado neste artigo o Calendrical Calculations.8 Outro ótimo programa capaz de gerar as situações do sistema rabínico é o LunaCal9. As situações astronômicas envolvidas serão analisadas com base no software mundialmente conhecido Redshift aqui em sua versão 2.010, cujo principal objetivo é reproduzir virtualmente um observatório astronômico. No caso do programa Redshift 2, fez-se uma ampliação no canto direito das imagens capturadas para facilitar a visualização. Para gerar as situações do calendário Juliano, será utilizado o programa Sky View Café11.


EVIDÊNCIA DO ANO 568 a.C – O ANO 37 DE NABUCODONOSOR

O ano 37 de Nabucodonosor é riquíssimo em informações históricas e astronômicas provenientes dos tabletes babilônicos. Muitos desses dados são relevantes para patentear a incompatibilidade entre o ciclo rabínico atual e o calendário babilônico da época de Daniel.


A citação a seguir é de um desses tabletes:

Ano 37 de Nabucodonosor, rei de Babilônia, mês 1. (o primeiro do qual foi identificado com) o trigésimo (do mês precedente), a lua tornou-se visível atrás do Touro do Céu (tradução nossa).12

O ano 37 de Nabudonosor equivale a 567/568 a.C (da primavera à primavera, no hemisfério norte). O referido mês 1 caía em março ou em abril. Como pode ser demonstrado pela
imagem 1, gerada pelo programa Redshift 2, a situação descrita no tablete ocorreu ao pôr-do-sol do dia 22 de abril de 568 a.C, pois nela se vê o primeiro crescente lunar sob o pano de fundo da constelação de Touro.
 
 
Imagem 1

Imagem 1 - Ano 37 de Nabudonosor equivale a 567/568 a.C

 

Isso faz de 22/23 de abril (de pôr-do-sol a pôr-do-sol) o dia 1º de nisan naquele ano. Diferentemente, o calendário rabínico coloca 1º de nisan em 24/25 de março, como o atesta a imagem 2, gerada pelo programa Calendrical Calculations. Em 24 de março, o primeiro crescente não aparece em Touro, mas em Áries.

 

Imagem 2

Esse é um dado relevante, pois vem do tempo de Daniel e da região em que ele estava quando recebeu suas revelações. Nesse período, é lógico supor que os judeus, por estarem em Babilônia, acompanhassem o calendário babilônico.

EVIDÊNCIA DO ANO 515 a.C – ANO EM QUE SE CONCLUIU A EDIFICAÇÃO DO SEGUNDO TEMPLO

Esdras 6:14-18 narra o término da reconstrução do Templo nos seguintes termos:

Os anciãos dos judeus iam edificando e prosperando [...] Edificaram a casa e a terminaram [...] Acabou-se esta casa no dia terceiro do mês de adar, no sexto ano do reinado do rei Dario. Os filhos de Israel, os sacerdotes, os levitas e o restante dos exilados celebraram com regozija a dedicação desta Casa de Deus [...] Estabeleceram os sacerdotes nos seus turnos e os levitas nas suas divisões, para o serviço de Deus em Jerusalém, segundo está escrito no livro de Moisés.

Babylonian Chronology13, p. 30, adota o dia 9/10 de março para 1º de adar em 515 a.C, sendo este ano o sexto de Dario I. Se é assim, 3 de adar foi 11/12 de março.

O dia 11/12 de março de 515 a.C foi um sábado, portanto, a declaração de que "acabou-se esta casa no dia terceiro mês de adar" não deve estar se referindo ao término do árduo trabalho de alvenaria, mas à própria inauguração do templo, que foi o último ato de restauração (ver
imagem 4).
Imagem 4 - O dia 11/12 de março de 515 a.C foi um sábado
Se essa interpretação está correta, então a informação de que os sacerdotes foram estabelecidos "nos seus turnos e os levitas nas suas divisões" concorda com Flávio Josefo, segundo o qual os turnos sacerdotais se estendiam de sábado a sábado:

Ele (Davi) também os dividiu em turnos: e após ter separado os sacerdotes, encontrou vinte e quatro turnos desses sacerdotes, dezesseis da casa de Eleazar, e oito da casa de Itamar; e ele ordenou que um turno deveria ministrar a Deus por oito dias, de sábado a sábado (tradução nossa).14

Isso também se harmoniza com 2º Reis 11:5-7.

Se, todavia, o ciclo rabínico for adotado, em 515 a.C, o dia 3 de adar não coincidirá com o sábado, como se pode perceber pela comparação das imagens geradas pelo programas Calendrical Calculations e Sky View Café, perdendo-se a vinculação preciosa da inauguração do templo com o dia de sábado (ver
imagens 5 e 6).

Imagem 5 - Se o ciclo rabínico for adotado, em 515 a.C, o dia 3 de adar não coincidirá com o sábado.
Imagem 6 - Se o ciclo rabínico for adotado, em 515 a.C, o dia 3 de adar não coincidirá com o sábado.
EVIDÊNCIA DO ANO 473 A.C – ANO EM QUE OS JUDEUS FORAM LIVRADOS DA ARMADILHA DE HAMÃ

Outra forte evidência contrária ao ciclo rabínico pode ser extraída do livro de Ester.

Ester 3:7 diz que se jogaram sortes perante Hamã durante os 12 meses do ano 12 de Xerxes. Quando chegou o dia 13 do primeiro mês do ano seguinte – isto é, do ano 13 de Xerxes – Hamã determinou que se matassem a todos os judeus que viviam no império, "em um só dia, no dia treze do duodécimo mês, que é o mês de adar" (Ester 3:13). Muito antes de esse dia chegar, Ester conseguiu do rei a expedição de um decreto autorizando os judeus resistirem aqueles que os quisessem matar (Ester 8:10-12).

Esse relato revela que, no ano 13 de Xerxes, o dia 13 de adar foi o mesmo tanto no calendário judeu quanto no calendário babilônico-presa. Mas, isso só é possível se o ciclo rabínico for mais uma vez desconsiderado.

Com efeito, o ano 12 de Xerxes começou em 1º de nisan de 474 a.C, que, segundo Babylonian Chronology p. 31, foi o dia 4/5 de abril. É sabido que, no fim do ano 12 de Xerxes, houve um mês intercalar (addaru 2), como está demonstrado pelo documento Cameron, PTT27 (Babylonian Chronology, p. 8). Esse mês adicional projeta o início do ano 13 de Xerxes para 21/22 de abril de 473 a.C, que foi o dia 1º de nisan naquele ano. Há, pois, segurança de que essa foi a data de 1º de nisan no ano 13 de Xerxes.

No ciclo rabínico, 1º de nisan em 473 a.C, não cairia em 21/22 de abril, mas em 22/23 de março, como se vê na
imagem 7, o que colocaria o dia 13 de adar em datas diferentes nos calendários judaico e babilônico-persa, não permitindo o sincronismo testemunhado no livro de Ester.

Imagem 7 - No ciclo rabínico, 1º de nisan em 473 a.C, não cairia em 21/22 de abril, mas em 22/23 de março.
EVIDÊNCIA DO ANO 63 a.C – ANO DA TOMADA DE JERUSALÉM POR POMPEU

No ano da conquista de Jerusalém por Pompeu, o dia da expiação coincidiu com o sábado semanal. Josefo dá indícios dessa coincidência ao informar que (1) os romanos preferiam trazer suas máquinas para perto das muralhas de Jerusalém aos sábados, pois sabiam que então os judeus não os atacariam, dada sua reverência por esse dia, e que (2) a cidade foi tomada num dia de jejum solene15. Quanto a este último item, é sabido que o único dia de jejum obrigatório prescrito pela leia era o Yom Kippur (o dia da expiação).16

Embora Josefo não diga explicitamente que Jerusalém tenha sido tomada num sábado, esse fato é também atestado pelo historiador romano Dio Cassius, que escreveu sua História Romana entre 200 e 220 d.C, o qual afirma que Pompeu tomou a cidade "no dia até então chamado dia de Saturno"17 isto é, o sábado (Saturday – dia de saturno).

É verdade que, nessa mesma citação Dio Cassius também situa a conquista de Jerusalém por Herodes e Sósio num sábado, mas a análise astronômica do início do sétimo mês naquele ano (37 a.C.) não favorece essa afirmação. Para esse caso, é preferível um dia da expiação no domingo.

Em 63 a.C, 10 de tishri caiu em 23/24 de outubro, já que o sétimo mês começou ao pôr-do-sol do dia 14 de outubro (ver
imagem 8, imagem 9 e 10).
Imagem 8 - Em 63 a.C, o sétimo mês começou ao pôr-do-sol do dia 14 de outubro.
Imagem 9 - Em 63 a.C, 10 de tishri caiu em 23/24 de outubro.
Imagem 10 - O dia 23/24 de outubro caiu num sábado.
Mas, pelo ciclo rabínico, o dia da expiação teria ocorrido um mês mais cedo naquele ano, numa quinta feira e não num sábado (ver imagem 11 e 12).

Imagem 11 - No ciclo rabínico, o dia da expiação teria ocorrido um mês mais cedo.
Imagem 12 - No ciclo rabínico, o dia da expiação caiu numa quinta-feira.
É interessante que essa situação seja bem semelhante à da controvérsia entre 23 de setembro e 22 de outubro – embora 63 a.C não seja ciclicamente correspondente a 1844, pois, em 63 a.C, o dia da expiação caiu bem tarde, em 23/24 de outubro.18 De que maneira os opositores da doutrina de 1844 tentarão fugir a essa estrondosa evidência histórica e astronômica é o que se terá de esperar pra ver.

EVIDÊNCIA DO ANO 69 D.C – ANO DA MORTE DE VITÉLIO


De acordo com Josefo, o imperador Vitélio "teve sua cabeça cortada no meio de Roma, (após) ter mantido o governo por oito meses e cinco dias " e a batalha que o levou à morte foi travada "no terceiro dia do mês de apelleus (casleu)" (tradução nossa).19

De acordo com o especialista em cronologia E.J. Bickerman, Óthon, predecessor de Vitélio, foi assassinado em 16 de abril de 69 d.C, e a morte de Vitélio ocorreu em 20 de dezembro do mesmo ano.20 Se é assim, pela declaração de Josefo, o mês de Kislev (ou casleu) caiu em dezembro no ano 69 d.C, o que não concorda com o ciclo rabínico, que o coloca em novembro (ver imagem 13).

Imagem 13 - O ciclo rabínico coloca Kislev em novembro.

Esse é mais um ponto crítico para o ciclo rabínico, pois Josefo estava vivo em 69 d.C, já tendo sido vencido e capturado pelos romanos na guerra judaica – trata-se, pois, de uma testemunha contemporânea. A correspondência que ele estabelece entre o mês macedônico de appeleus e o mês judaico de casleu (kislev), ao falar da derrota e da morte de Vitélio, representa mais um forte argumento em desfavor do calendário rabínico.

CONCLUSÃO

A análise que se procedeu acima revela que, ao menos para os vários anos indicados, o ciclo rabínico não se harmoniza com o calendário judaico dos tempos de Esdras e de Jesus ou com o calendário babilônico-persa dos dias de Daniel e de Ester.

A DISTORÇÃO DO CALENDÁRIO JUDAICO PELA REFORMA DE HILLEL II

Os testemunhos da antiguidade que acabaram de ser examinados atestam que o ciclo rabínico atual não representa uma continuidade dos calendários judaico e babilônico-persa conforme praticados no período que se estende do sexto século a.C ao primeiro século da era cristão e fazem suscitar a dúvida quanto ao que provocou essa distorção. Os parágrafos a seguir tentarão responder a essa questão.

Com a destruição do templo no ano 70 e a dispersão definitiva dos judeus no ano 135 da era cristã, deixou de existir um núcleo decisório que definisse tanto a duração do mês a cada lua nova quanto os anos em que era preciso intercalar um décimo terceiro mês. Acrescente-se a isso o fato de que os diferentes grupos de emigrantes judeus se encontravam a muitos quilômetros de distancia uns dos outros e não será difícil estender por que as datas do calendário judaico diferiam de comunidade para comunidade nessa época.

Ao reorganizar o calendário judaico, a intenção de Hillel II era definir critérios claros que possibilitassem a adoção de um sistema único pelos judeus do mundo inteiro. Por isso, abandonou-se a variabilidade entre 29 e 30 dias de que cada mês gozava até então, fixando-se rigidamente a duração de cada um dos 12 meses, o que tornou menos relevante a observação do primeiro crescente. Também se definiu em que anos do ciclo lunissolar de 19 anos o décimo terceiro mês deveria ser intercalado, relegando ao passado a regra da observação da cevada madura. Atualmente, os rabínicos intercalam o mês adicional invariavelmente no terceiro, sexto, oitavo, décimo primeiro, décimo quarto, décimo sétimo e décimo nono anos do ciclo. Os novos parâmetros criaram uma rigidez antinatural do calendário, o que distorceu seus fundamentos, rompendo o elo com o calendário seguido nos tempos de Daniel, Esdras, Ester e Jesus.

Dentre os critérios introduzidos pela Reforma de Hillel que distorceram o sistema do calendário judaico, possivelmente o de maior conseqüência tenha sido o da fixação arbitrária de 16 de nisan no equinócio da primavera como parâmetro geral. Uma instrução rabínica do quarto século afirma:
"Quando tu vires que o tequphah, (ou ciclo) de tebeth se estenderá ao décimo sexto dia de nisan, declara aquele ano um ano embolísmico (ou intercalar) sem hesitação" (tradução nossa).21

Tequphah é um termo hebraico que significa "a volta do ano" e se refere aos equinócios, quando aproximadamente os anos recomeçavam no Oriente Médio. Kenneth F. Doing22 explica que a expressão "tequphah de tebeth" se refere ao período compreendido entre o solstício do inverno e o equinócio da primavera.

Em outras palavras, o que o Talmude está querendo dizer é que sendo percebido, por cálculo (o ciclo dos 19 anos), que o inverno se estenderá até o dia 16 de nisan, fazendo assim o equinócio cair no dia 17, naquele ano deve ser intercalado um décimo terceiro mês. Obviamente, se o inverno se estender tão somente até o dia 15 de nisan, esse procedimento não se fará necessário, o que permite concluir que os rabinos admitiam que o dia 1º de nisan começasse até 15 dias antes do equinócio da primavera, fazendo o 16 de nisan, data rabínica para o festival das primícias, cair bem em cima do equinócio. Portanto, tudo indica que Hillel estabeleceu a equação 16 de nisan = equinócio da primavera como batiza do calendário, opção que resultou na distorção do sistema judaico, por quebrar o vínculo com o calendário seguido nos tempos de Esdras e de Jesus, já que os registros da antiguidade23 nunca revelam o primeiro mês começando em data tão baixa quanto 15 dias antes do equinócio.

A
imagem 14, gerada pelo programa Calendrical Calculations, revela que em 360 d.C. o sistema rabínico situa 16 de nisan precisamente em cima do equinócio, que naquela faixa da era cristã estava em 19 de março.

Imagem 14 - Em 360 d.C. o sistema rabínico situa 16 de nisan precisamente em cima do equinócio.


Os caraítas não concordam em alinhar o 16 de nisan com o equinócio da primavera, pois, entendendo que a observação da cevada madura é o método subentendido das Escrituras24, consideram impossível começar o mês de nisan tão cedo quanto 15 dias antes do equinócio, já que isso resultaria numa festa das primícias sem os primeiros frutos da cevada.

Quando as tabelas de Richard A. Parker e Waldo H. Dubberstein, em sua reconstrução do calendário babilônico-persa, e de Siegfried H. Horn, com seu calendário judaico de Elefantina, são comparadas com o ciclo rabínico, nota-se que as datas rabínicas estão 20 dias mais baixas que as atestadas pelos tabletes mesopotâmicos e pelos papiros judaicos do Egito. Na sua maior parte, isso se deve a uma diferença conceitual: os babilônicos e os judeus de Eelefantina procuravam alinhar com o equinócio o 1º de nisan, ao passo que os rabínicos procuram sincronizar com o equinócio o dia 16 de nisan.

A diferença de 20 dias pode ser explicada assim: 15 dias de diferença decorrentes do padrão rabínico de buscar esse sincronismo de 16 de nisan com o equinócio mais 5 dias de diferença devido à projeção do ciclo rabínico para trás. A cada 19 anos, o ciclo rabínico se desloca 0,08685 dia em relação ano ano solar. Retrocedendo o ciclo rabínico desde o quarto século d.C, até o quinto século a.C, cria-se a diferença de quase 5 dias.

Recentemente, o especialista judeu Sacha Stern25 publicou uma obra valiosa sobre a história do calendário judaico, intitulada Calendar and Community- A History of teh Jewish Calendar, 2 nd Century BCE to 10th Century CE (Calendário e comunidade uma história do calendário judaico, do 2º século a.C ao 10º século d.C), a qual vem corroborar o que acabamos de demonstrar.

No resumo de seu livro, informa-se que:

Até o primeiro século d.C calendários lunares judaicos tendiam a ser mais tardios em relação ao ano solar; e a páscoa sempre ocorria depois do equinócio vernal. Lá pelo quarto século, intercalações foram ajustadas de modo que a páscoa passou a ser mais cedo (tradução e grifo nossos).26

 


Aqui temos um importante testemunho proveniente de um erudito judeu moderno sobre a descontinuidade do calendário rabínico em relação ao calendário judaico praticado na antiguidade.

RABÍNICOS VERSUS CARAÍTAS

Nos últimos anos, a data mais precoce para 1º de nisan no ciclo rabínico aconteceu em 1994, com nisan começando em 12/13 de março. Em 2002, os caraítas começaram o mês de nisan em 15/16 de março, apenas 3 dias mais tarde que a data indicada pelo sistema rabínico em 1994.

De acordo com o site do Movimento Caraíta, as datas de 1º de nisan, definidas com base nos critérios de observação do primeiro crescente e do amadurecimento da cevada, entre 1999 e 2002, foram as seguintes:

1999- 17/18 de abril
2000- 5/6 de abril
2001- 26/26 de março
2002- 15/16 de março

O ciclo rabínico dá as seguintes datas para 1º de nisan nos mesmos anos:

1999 - 17/18 de março
2000 – 5/6 de abril
2001 – 25/25 de março
2002 – 13/14 de março

Esses dados revelam que, apesar da divergência entre os métodos rabínico e caraíta, as datas de ambos os sistemas têm sido as mesmas ou têm apresentado pouquíssima diferença nos últimos anos. Essa coincidência reincidente entre datas rabínicas re caraítas tem uma explicação.

É que o calendário rabínico obedece rigidamente o ciclo lunissolar, em que se verifica um adiantamento da lua em relação ao sol de cerca de 2 horas (0,08685 dia) a cada 19 anos. De 358 d.C até hoje, esse distanciamento do ciclo lunar em relação ao ciclo solar já se acumulou em cerca de 7 dias, o que significa que as datas rabínicas já estão atualmente 7 dias mais tardias que no tempo de Hillel II. As datas caraítas, por sua vez, estão ficando possivelmente mais precoces por causa do aquecimento global, que tem sido responsável pelo amadurecimento cada vez mais cedo da cevada.

J. Neumann, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade Hebraica (Hebrew University), e R.M. Sigrist, da Escola Bíblica (Ecole Biblique), ambos de Jerusalém, após examinarem referências a datas de colheita da cevada nos tabletes de argila da Mesopotâmia, afirmam que, no período do Primeiro Império Babilônico (1.800 a.C – 1650 a.C), tais colheitas geralmente começavam no final de março ou começo de abril, ao passo que, no período neobabilônico (600 a.C – 400 a.C), época de Daniel e Esdras, elas começavam no final de abril ou em maio.

Segundo os mesmos pesquisadores, "em nossa própria era, naquilo que foi uma vez a Babilônia central e norte, a colheita começa na segunda metade de abril ou mais tarde. Consequentemente, no L.O.B.p. (período do Primeiro Imprério Babilônico), a colheita começava 10-20 dias mais cedo e no N.B.p. (período do Império Neobabilônico) 10-20 dias mais tarde que no presente" (tradução nossa)27. Isso parece indicar que o clima do período do Primeiro Império Babilônico era mais frio que o da época atual.

Quando os caraítas atuais defendem datas coincidentes com as do calendário rabínico, é evidente que sua análise está afetada pelo aquecimento global.

UM ESQUEMA ANCORADO NO CÉU

Recenetemente, a data de 22 de outubro tem sofrido ataques da parte daqueles que, acreditava-se, eram seus origionadores: os caraítas. Em resposta a uma consulta feita por opositores da fé adventista, o caraíta Nehemia Gordon declarou que "o Yom Kippur deve ter sido celebrado pelos caraítas no final de setembro em 1844, de acordo com o ciclo rabínico dos 19 anos, e não no final de outubro" (tradução nossa).28

Primeiramente é importante ressaltar os termos duvidosos com que Nehemia Gordon expressa sua opinião ("deve ter sido celebrado"). Evidentemente, ele não tinha acesso a nenhum documento de 1844 que comprovasse a celebração do dia da expiação em 23 de setembro pelos caraítas.

Em segundo lugar, mesmo que os caraítas tivessem começado o mês de tishiri com a lua nova de setembro, isso pouco importaria, pois Ellen G. White não se compromete com eles. Na verdade, o grande equívoco de muitos autores adventistas até hoje tem sido o de superestimar a importância dos caraítas para a sustentação da data de 22 de outubro. A relevância do movimento caraíta para o adventismo está circunscrita aos seus princípios corretos de organização do calendário, a saber, a observação real do primeiro crescente lunar e a constatação do amadurecimento da cevada. Foram esses princípios que ajudaram os mileritas a localizar a data correta da expiação em 1844. Qualquer supervalorização dos caraítas para além desses pontos fundamentais é desnecessária e imprópria, já que documentalmente se trata de uma seita judaica tardia, tendo surgido no século 8 da era cristã. Não representam, pois, uma tradição contínua desde os dias de Daniel, Esdras e Jesus.

Ademais, é oportuno corrigir aqui um conceito equivocado que se cristalizou no imaginário popular adventista: o de que exista um calendário caraíta fixo, assim como o é o calendário rabínico, o qual permita saber antecipadamente em que data Juliana ou gregoriana cairá determinado dia e mês. Isso é absolutamente falso, pois não existe algo como uma "folhinha" caraíta. Diferentemente do que ocorre no calendário rabínico, a duração de qualquer mês no sistema caraíta só é definida no seu 29º dia: se o crescente lunar for detectado ao pôr-do-sol, o novo dia dará início a um novo mês, de modo que o mês corrente ficará com 29 dias, não sendo detectado o primeiro crescente, o mês corrente avançará mais um dia, totalizando 30 dias. Da mesma forma, a necessidade ou não da inserção do décimo terceiro mês no sistma caraíta só é determinada no final do mês de adar, ao se examinar o estado da cevada nos arredores de Jerusalém: estando propícia para sua colheita duas semanas depois, na festa das primícias, não se acrescenta o vê-adar; do contrário, insere o décimo terceiro mês.

Alguns autores adventistas do sétimo dia, distanciados da experiência milerita, não tem prestado atenção a esse fato e acabam transmitindo a impressão de que exista um calendário caraíta fixo e de que os mileritas se basearam nele ao escolher a data de 22 de outubro. Todavia, nem os mileritas, nem Ellen G. White fazem tal reivindicação. Por isso, quando os opositores da fé adventista pedem que se lhes apresente uma "folhinha" caraíta de 1844, estão solicitando algo que nunca os mileritas ou Ellen G. White disseram existir.

Até mesmo o fator cevada madura deve ter seu papel redimensionado ao se discutir a posição dos meses judaicos dentro do ano solar em 1844. Isso por dois motivos:

1) Como foi dito há pouco, o aquecimento global tem provocado um amadurecimento mais precoce da cevada em relação ao que se verificava nas épocas de Daniel e Esdras, o que têm propiciado uma aproximação das datas dos sistemas rabínico e caraíta nos anos mais recentes;

2) Desde a morte de Cristo em 31 d.C, caducou para sempre o sistema cerimonial do templo judeu, não existindo razão alguma para voltarmos nossa atenção para a cevada madura em Jerusalém ou em qualquer outra parte do mundo. Paulo já declara: "Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós tenha eu trabalhado em vão para convosco" (Gl 4:10 e 11). De fato, a partir de 31 d.C, "o tempo oportuno de reforma", os crentes deveriam transferir sua atenção do santuário terrestre para o celestial, onde Cristo ingressou para ministrar como sumo sacerdote (Hb 9:9-12 e 24). No meio da septuagésima semana da profecia de Daniel, cessou "o sacrifício e a oferta de manjares" (Dn 9:27; Mt 27:50 e 51; Ef 5:2; e Hb 10:5-10). Portanto, não há razão alguma para uma preocupação exagerada com a situação da cevada em Jerusalém. Essa era uma tarefa para sacerdotes, não para milleritas, ou adventistas, ou quaisquer outros
cristãos.


É interessante notar que a mesma cruz que pôs fim ao sistema cerimonial judaico, tornando desnecessária uma maior preocupação com a situação da cevada em 1844, também serve de âncora para o esquema cronológico que conduz a 22 de outubro. É a data da crucifixão (abril de 31 d.C) que sustenta as datas de início (outubro de 457 a.C) e de término (outubro de 1844 d.C) das 2.300 tardes e manhãs, pois, dentre os eventos preditos em Daniel 9:24-27, é o que possui os melhores dados da Bíblia e da história para sua localização. Fixando a data exata da morte de Cristo, é possível determinar também as datas dos outros eventos vinculados cronologicamente na profecia. Visto que a localização da data da cruz depende essencialmente da astronomia, pode-se dizer que o esquema cronológico sobre o qual se apóia a mensagem adventista está ancorado no céu. Esse tema será mais amplamente desenvolvido a seguir.

PARTE 2: A CENTRALIDADE DA CRUZ NO ESQUEMA CRONOLÓGICO DE 1844 – DETERMINADANDO OS PONTOS DE INÍCIO, DE MEIO E DE TÉRMINO DOS PERÍODOS PROFÉTICOS DE DANIEL 8:14 E 9:24-27

"UM PREGO EM LUGAR FIRME"

Na primeira parte deste artigo, demonstrou-se que o ciclo rabínico em que se estribam os opositores da fé adventista para denunciar a data de 22 de outubro como mero equívoco milerita não concorda com o calendário judaico dos tempos de Esdras e de Jesus ou com o calendário babilônico-persa dos dias de Daniel e de Ester, uma vez que, por vezes, para os mesmos anos, algumas fontes antigas situam os meses judaicos mais tardiamente, dentro do ano solar, que o ciclo rabínico.

Isso não significa que, apenas por conta dessas inconsistências, a data do ciclo rabínico para o dia da expiação em 1884 (23 de setembro) deva ser sumariamente descartada, mas sem dúvida coloca o sistema do qual ela é dependente sob forte suspeição.

Discutir se o sétimo mês judaico deveria ter começado com a lua nova de setembro ou com a luz nova de outubro com base no amadurecimento da cevada naquela ocasião é inócuo, pois não existem informações disponíveis sobre a situação da cevada nos arredores de Jerusalém na primavera de 1844. Os próprios mileritas foram suficientemente honestos em reconhecer esse fato.29

Na verdade, a data de 22 de outubro está ancorada na solidez de 31 d.C, como ano da crucifixão de Cristo, para o qual se verifica uma convergência singular de dados bíblicos e históricos. Se o meio da septuagésima semana é fixado em 31 d.C, o início das 70 semanas necessariamente será em 457 a.C e o término das 2.300 tardes e manhãs terá de ser em 1844.30

Seguindo o mesmo raciocínio, se a páscoa da crucifixão (no primeiro mês judaico) caiu em abril, tanto o início quanto o fim das 2.300 tardes e manhãs terão de ser em outubro, pois a morte de Cristo ocorreu 69,5 semanas proféticas ou 486,5 anos depois que as 70 semanas começaram (Dn 9:25 e 27): 0,5 ano corresponde a 6 meses: 6 meses antes de abril dá em outubro. Como bem disse M.L. Andreansen, autor do clássico adventista O Ritual do Santuário, "o meio da semana que aponta o tempo do sacrifício sobre a cruz é... como um prego num lugar firme" (Is 22:23), ao qual está amarrada" toda estrutura cronológica da profecia e que também justifica a data de 1844. Remova-se ou mude-se essa data" e não haverá "uma âncora para o sistema cronológico culminando em 1844".31

A DATA DA CRUFIXÃO

A certeza do ano 31 d.C consiste no fato de ser a única opção sustentável32, dentro do período do governo de Pôncio Pilatos (26 d.C – 36 d.C)33, em que o 15 de nisan34, data judaica da crufixão, caiu numa sexta feira35. Tal foi o caso em 26/27 de abril do ano 31.

Afim de se estabelecer a correspondência entre as datas judaicas e o calendário Juliano (ou o gregoriano), é necessário averiguar em que dia o primeiro crescente lunar (lua nova eclesiástica) foi visível. Os principais fatores que determinam a visibilidade do primeiro crescente são a diferença azimutal entre o sole a lua e a altitude da lua. Esses dois fatores combinados funcionam como os eixos x e y de um plano cartesiano.

O azimute é a distância em graus, medida sobre o plano do horizonte, entre um corpo celeste e o ponto cardeal norte. A diferença azimutal entre o sol e a lua revela a distancia em graus entre esses dois corpos medida sobre o plano do horizonte. Quanto maior a diferença azimutal, mais afastados estarão o sol e a lua entre si. A altitude da lua é a distancia em graus entre o corpo celeste e a linha do horizonte.

Nas edições de agosto de 1971, setembro de 1989 e julho de 1994, a respeitada revista de astronomia Sky and Telescope36 publicou alguns gráficos que permitem avaliar a visibilidade da lua a partir de sua altitude e da diferença azimutal em relação ao sol. O gráfico da
imagem 15 é o da edição de setembro de 1989.

Imagem 15 - visibilidade da lua a partir de sua altitude e da diferença azimutal em relação ao sol.

 

Cada círculo fechado representa um crescente lunar que pôde ser visto e cada círculo aberto indica uma lua nova que foi procurada, mas que não foi vista. A linha no meio do gráfico procura dividir, aproximadamente, os casos que foram bem sucedidos dos que não o foram.

Com esses dados em mãos, é possível determinar a data exata da crucifixão em termos do calendário Juliano. Assim como na primeira parte deste artigo, as situações astronômicas envolvidas serão analisadas aqui com base no software Redshift, versão 2.0. Para gerar as situações do calendário Juliano, será utilizado o programa Sky View Café.

Para o ano 31 d.C, a obra Babylonian Chronology (p. 46) propõe o pôr-do-sol de 11 de abril para o início do primeiro mês. No entanto, quando os dados astronômicos são cuidadosamente observados, percebe-se que, ao pôr-do-sol do dia 11, a lua estava muito baixa para ser detectada a olho nu.37

Não é de admirar que a data proposta por Parker e Dubberstein para o início do primeiro mês não seja a mais favorável, pois na página 25 de Babylonian Chronology eles admitem "que um certo número de datas" em suas tabelas "podem estar erradas por um dia".

Adotando o pôr-do-sol do dia seguinte (12/04/31), o crescente é perfeitamente visível. O azimute do sol era de 279º 45’ 56" (ver
imagem 16) e o da lua, de 275º 35’ 5" (ver imagem 17), sendo a diferença azimutal, portanto, de 4º10’51". A altitude da lua era de 22º38’52". Quando esses valores são aplicados ao gráfico da revista Sky and Telescope, fica evidente que a lua estava acima do limite de visibilidade (ver imagem 18).
Imagem 16 - Pôr-do-sol do dia 12/04/31. Azimute do sol: 279º 45’ 56

Imagem 17 - Pôr-do-sol do dia 12/04/31. Azimute da lua: 275º 35’ 5
Imagem 18 - Pôr-do-sol do dia 12/04/31. Diferença azimutal de 4º10’51
Definindo 12/13 de abril do ano 31 d.C como o primeiro dia do primeiro mês, o dia 15 de nisan cai em 26/27 de abril de pôr-do-sol a pôr-do-sol (ver imagem 20).
Imagem 20 - O dia 15 de nisan cai em 26/27 de abril.
Imagem 20 - O dia 15 de nisan cai em 26/27 de abril
Como pode ser demonstrado pela imagem Sky View Café, o dia 27 de abril caiu numa sexta feira, o que preenche perfeitamente o quadro cronológico dado pelo Novo Testamento: sexta feira = 15 de nisan (ver imagem 21).
Imagem 21 - O dia 27 de abril caiu numa sexta feira.

COMPREENDENDO A ESTRUTURA MATEMÁTICA DA PROFECIA

Sendo conhecida a data exata da crucifixão (26/27 de abril do ano 31), basta retroceder 69,5 semanas proféticas ou 486,5 anos para se chegar ao ponto de partida dos períodos proféticos de Daniel 8 e 9 e depois avançar 2.300 anos para se chegar ao ponto correto indicado pela profecia para o dia da expiação em 1844. Mas isso deve tomar como base o calendário judaico, lunissolar, no qual a data do dia da expiação era fixada. Os parágrafos a seguir tentarão aclarar as relações matemáticas dos períodos proféticos entre si.

Para realização dos cálculos, serão adotados os valores do ano solar (365,2422 dias) e do mês lunar (29,53059 dias).38

O INÍCIO E O FIM DAS 2.300 TARDES E MANHÃS – CÁLCULO DO DIA DO MÊS

Daniel 8:14 informa que, ao término das 2.300 tardes e manhãs, deveria ocorrer um evento de purificação do santuário. No cerimonial típico do Antigo Testamento, isso acontecia no décimo dia do sétimo mês, quando o sumo sacerdote israelita entrava no lugar santíssimo do santuário para purificá-lo dos pecados do povo (Lv 16:29; 23:27 e 32; 25:9; e Nm 29:7). Fixando o término do período profético no dia da expiação, basta retroceder 2.300 anos para se localizar o ponto de partida do mesmo período.

Segue-se, então, o seguinte raciocínio: 2.300 anos solares constituem 840.057,06 dias (2.300 x 365,2422 = 840.057,06). Dividindo esse valor pela quantidade de dias de um mês lunar, obtém-se o total de meses lunares presentes em 2.300 anos, a saber, 28.447,0124 (840.057,06/29,53059 = 28.447,0124).

Retrocedendo 28.447 meses judaicos desde o décimo dia do sétimo mês, chega-se obviamente a um dia 10, embora tal método não permita determinar a que mês esse dia pertence. O raciocínio é idêntico ao que seria feito com base num calendário Juliano-gregoriano. Por exemplo: retrocedendo um mês desde o dia 22 de outubro, chega-se ao dia 22 de setembro; retrocedendo 12 meses, chega-se ao dia 22 de outubro do ano anterior; retrocedendo 28.447 meses, chega-se ao dia 22 de um mês qualquer. Assim, fica matematicamente demonstrado que o ponto de partida dos 2.300 anos é necessariamente o décimo dia de algum mês judaico. A fração de 0.0124 mês corresponde a apenas 8,7888 horas, valor bem inferior ao de um dia completo (24 horas), sendo, portanto, insuficiente para deslocar as extremidades do período profético de dentro do dia da expiação. O digrama reproduzido na
imagem 22 ajudará na compreensão de todo esse raciocínio.
Imagem 22 - O Diagrama do esquema profético
O INÍCIO E O FIM DAS 2.300 TARDES E MANHÃS – CÁLCULO DO MÊS

Descobrir o mês em que os 2.300 anos deviam começar exige que se raciocine com base na seguinte constatação matemática e astronômica: após um ciclo de 19 anos, os meses judaicos voltam a ocupar a mesma posição que tinham dentro do ano solar no começo do ciclo.39

Com isso em mente, desenvolve-se o seguinte raciocínio: dividindo o total de meses lunares existentes em 2.300 anos (28.447 meses) pela quantidade de meses lunares presentes em um ciclo (235 meses)40, chega-se ao total de ciclos existentes em 2.300 anos: 121 ciclos + 12 lunações (sobra).

Retrocedendo 121 ciclos desde o sétimo mês, chega-se naturalmente ao sétimo mês, chega-se naturalmente ao sétimo mês. Retrocedendo ainda os 12 meses restantes, chega-se novamente ao sétimo mês.41 Portanto, as 2.300 tardes e manhãs têm de começar no sétimo mês do calendário judaico, o mês de tishri (ver a
imagem 22).

O MEIO DA SEPTUAGÉSIMA SEMANA – CÁLCULO DO MÊS

Do início das 70 semanas até a morte do Ungido transcorreriam 69,5 semanas ou 486,5 anos. Ficou demonstrado no subitem anterior que as 2.300 tardes e manhãs começam no sétimo mês do calendário judaico. Isso significa que as 70 semanas também se iniciam nesse mês, pois ambos os períodos começam simultaneamente.

Avançando, então, 486 anos desde o sétimo mês, chega-se também ao sétimo mês; e com os 6 meses restantes, correspondentes à metade de um ano, pode-se chegar ao décimo terceiro mês ou ao primeiro mês, já que o ano judaico podia contar com 12 ou 13 meses, dependendo do caso. O Novo Testamento registra que a morte de Jesus ocorreu na época da Páscoa judaica, que era sempre celebrada no primeiro mês (Mc 14:12 e Lv 23:5 e 6). Fica claro, pois, que o meio da septuagésima semana deveria coincidir com o primeiro mês do ano judaico, o mês de nisan (ver novamente a
imagem 22, p112).

O MEIO DA SEPTUAGÉSIMA SEMANA – CÁLCULO DO DIA DO MÊS

Não somente o ano e o mês, mas mesmo o dia exato da morte do Salvador já estavam indicados em Daniel 9: 69,5 semanas proféticas equivalem a 486,5 anos; estes, por sua vez, consistem em 177.690,3303 dias (486,5 x 365,2422 = 177.690,3303), nos quais há 6.017,1615 meses lunares (177.690,3303/29,53959 = 6.017,1615).

Desconsiderando-se, num primeiro momento, a fração (0,1615) e avançando apenas com o valor inteiro de 6.017 meses lunares, chega-se ao décimo dia do primeiro mês. Caminhando 4.7692 dias, correspondentes a 0,1615 mês lunar (0,1615 x 29,53059 = 4.7692), a partir do décimo dia do primeiro mês, chega-se ao décimo quarto dia desse mesmo mês, que seria, então, o dia da crucifixão de Cristo. Mas, o Novo Testamento aponta para o décimo quinto dia do primeiro mês como o dia da morte do Salvador, o que exige uma pequena correção no esquema traçado até aqui. O ponto alto do dia da expiação era a hora do sacrifício da tarde, aproximadamente às 15 h, quando o sumo sacerdote saía do santuário, depois de tê-lo purificado, e abençoava o povo. Fixando aí o início dos períodos proféticos, as 69,5 semanas atingem não a parte clara do dia 12, mas a noite do dia 15 (ver
imagem 22), na qual Jesus, após ter celebrado a última páscoa com os discípulos, instituiu a cerimônia que deveria comemorar sua morte pelos séculos por vir (1 Cor 11:23-26). Naquela mesma noite, Jesus passou pela terrível experiência do Getsêmani e foi preso para ser crucifixado.42

CONCLUSÃO

As 2.300 tardes e manhãs começam e terminam na data judaica do Yom Kippur: o décimo dia do sétimo mês. As 69,5 semanas se estendem do meio da tarde desse mesmo dia até a noite do décimo quinto dia do primeiro mês (ver
imagem 22).

LOCALIZANDO O INÍCIO E O FIM DAS 2.300 TARDES E MANHÃS

Tomando a noite do dia 26 de abril do ano 31, d.C como o meio da septuagésima semana da profecia de Daniel, basta retroceder 177.690,3303 dias (correspondentes às 69,5 semanas ou 486,5 anos) para localizar o início do período. Subtraindo 1.732.496,3720 (data Juliana43 correspondente às 22h26 de 26 de abril de 31 d.C, a noite em que Jesus celebrou a páscoa e seguiu para o Getsêmani) por 177.690,3303, obtém-se 1.554.806,0417. Quando esse valor é fornecido ao programa Redshift 2, a tela apresenta o céu do dia 29 de outubro de 457 a.C, as 15 h (ver
imagem 23).
Imagem 23 - 29 de outubro de 457 a.C, as 15 h, início do período profético das 2300 tardes e manhãs
Imagem 23 - 29 de outubro de 457 a.C, as 15 h, início do período profético das 2300 tardes e manhãs
Diante disso, basta apenas confirmar-se 28/29 de outubro foi realmente um dia da expiação. Para tanto, seria necessário que o pôr-do-sol do dia 19 de outubro tivesse marcado o início do sétimo mês (ver imagem 24).
Imagem 24 - O pôr-do-sol do dia 19 de outubro foi o início do sétimo mês.
Nessa ocasião, o azimute do sol era de 260º35’42" (ver imagem 25) e o da lua, de 248º6’49" (ver imagem 26), sendo a diferença azimutal, portanto, de 12º28’53". A altitude da lua era de 11º 51’43". Embora esses valores, quando projetados sobre o gráfico da revista Sky and Telescope, coloquem a lua praticamente em cima do limite de visibilidade, pode-se afirmar que as condições permitiam que o primeiro crescente fosse visto (ver imagem 27). Parker e Dubberstein também adotaram o pôr-do-sol desse dia para o início do mês, embora tenham aplicado ao mês uma posição diferente na ordem dos meses do ano.44
Imagem 25 - 19 de outubro de 457 a.C o azimute do sol era de 260º35’42
Imagem 26 - 19 de outubro de 457 a.C o azimute da lua foi de 248º6’49
Imagem 27 - 19 de outubro de 457 a.C a diferença azimutal foi de 12º28’53
Tomando as 15 h do dia 29 de outubro de 457 a.C como o ponto de partida dos períodos proféticos de Daniel 8 e 9 e caminhando 840.057,06 dias (correspondentes aos 2.300 anos), chega-se às 16h26 do dia 23 de outubro de 1844 d.C, em Jerusalém, o que corresponde ao começo da manhã em Boston e Nova Iorque45. Procede-se esse cálculo somando-se o total de dias existentes em 2.300 anos (840.057,06 dias) à data Juliana referente às 15 h de 29 de outubro de 457 a.C (1.554. 806,0417), com o que se obtém o resultado de 2.394.863,1017. Fornecendo-se esse valor ao programa Redshift 2, a tela exibe o céu de 23 de outubro de 1844, às 16h26 (ver imagem 28).
Imagem 28 - 23 de outubro de 1844, fim dos 2300 anos.
Visto que as 2.300 tardes e manhãs precisam terminar num dia da expiação, faz-se necessário avaliar se o dia 22/23 de outubro poderia ter sido o décimo dia do sétimo mês naquele ano. Para tanto, o mês de tishri deveria ter começado ao pôr-do-sol do dia 13 de outubro (ver imagem 29).
Imagem 29 - Imagem 28 - 23 de outubro de 1844 foi um 10º de tishri.

Nessa ocasião, o azimute do sol era de 261º4’57” (ver imagem 30) e o da lua, de 241º11’40” (ver imagem 31), sendo a diferença azimutal, portanto de 19º53’17". A altitude da lua era de 9º47’00". Embora a lua não estivesse a uma grande altitude, sua distância em relação ao sol era considerável, permitindo sua visibilidade (ver imagem 32).
Imagem 30 - Por-do-sol de 12/13 de outubro de 1844. Azimute do sol era de 261º4’57”

Imagem 31 - Por-do-sol de 12/13 de outubro de 1844. Azimute da lua: 241º11’40”
Imagem 31 - Diferença azimutal: 19º53’17
A análise astronômica assegura que o primeiro crescente foi visível ao pôr-do-sol de 13 de outubro, o que faz de 13/14 de outubro o dia 1º de tishri, confirmando 22/23 de outubro como o dia da expiação em 1844. Portanto, há sólido fundamento no esquema profético e astronômico para a data de 22/23 de outubro. Uma explanação mais ampla e minuciosa do assunto pode ser encontrada no site www.concertoeterno.com ou no livro Chronological Studies Related to Daniel 8:14 and 9:24-27, publicado pela UNAPRESS.

Como foi dito brevemente, o começo da manhã de 23 de outubro de 1844 d.C em Boston corresponde ao meio da tarde do mesmo dia em Jerusalém. Foi possivelmente nesse momento que o millerita Hiram Edson teve sua famosa "visão do milharal", na qual diz ter visto os céus se abrirem e Jesus entrar no santo dos santos do santuário celestial para receber o reino, o domínio e a glória (Dn 7:13)46. Foi ali que o cômputo profético das 2.300 tardes e manhãs se encerrou; e Deus, que nunca se permite ficar sem testemunhas, revelou esse importante acontecimento para o humilde fazendeiro. Pode-se dizer que foi ali, em certo sentido, que nasceu a teologia adventista do sétimo dia, uma teologia não baseada na fantasia e na especulação, mas na confiabilidade da Palavra de Deus, na inalterabilidade das leis naturais (Jr 31:35 e 36) e na revelação divina (experiência de Hiram Edson e Ellen G. White), podendo ser, por isso, considerada qual "âncora da alma", "segura e firme", um "firme fundamento", estabelecida na fidelidade das promessas de Deus (Hb 6:19; e 11:1).

REFERÊNCIAS

1- Um artigo publicado no The Midnight Cry, de 3 de outubro de 1844, afirmava que o dia da expiação não podia ‘’estar muito fora de 22 ou 23 de outubro’’. No mesmo periódico, em 12 de outubro, declarou-se que ‘’o aniversário do dia da expiação será em 23 de outubro’’. Na edição de 19 de outubro, o The Midnight Cry trouxe do sétimo mês, que corresponde a 22 ou 23 de outubro. ‘’A data dupla, nesse caso, indica que o ciclo de 24 horas está sendo computado de pôr-do-sol a pôr-do-sol, segundo o método bíblico.

2- Tudo indica que os mileritas basearam sua opção nos ‘’relatos de muitos viajantes’’, segundo os quais a cevada não era encontrada madura na páscoa calculada pelo método rabínico, pois a ‘’cevada não estava na espiga em Jerusalém até um mês mais tarde’’ (The Midnight Cry, de 11 de outubro de 1844). Um desses relatos é o testemunho de E. S. Colman, um judeu convertido ao cristianismo e enviado como missionário à Palestina. Em seu artigo, escrito na Terra Santa em 1836 e publicado no American Biblical Repository, de abril de 1840, p. 398 e seguintes, ele afirma: ‘’Nada como espigas de grãos verdes tenho eu visto ao redor de Jerusalém na celebração dessa festa. Os judeus caraítas a observam mais tarde que os rabínicos.’’ (Citado por J. V. Himes, S. Bliss, e A. Hale, no artigo ‘’The Seventh Month Movement – Its History – Its Results – Defects in the Argument – Our Position’’, The Adventist Shield and Review, janeiro de 1845, tradução nossa). Pode-se deduzir do artigo de Colman que, por volta de 1836, os judeus caraítas estavam observando a páscoa mais tarde que os judeus rabínicos. Para maiores detalhes sobre a matéria, ver o artigo ‘’Karaite Reckoning v. Rabbanite Reckoning: Was October 22 the Right Date, or Was It September 23:’’, no site HTTP://www.pickle-publishing.com

3- Números 28:11 e 14; I Samuel 20:5, 18, 9, 24, 27 e 34; e Isaías 66:23 vinculam o início do mês à lua nova. A comparação de Números 10:10 com Salmos 81:3 reforça essa conclusão. Convém notar, entretanto, que não se trata da lua nova astronômica (conjunção), pois esta, não sendo visível, não se prestava como marco facilmente identificável do início do mês; trata-se, antes, da lua nova eclesiástica (primeiro crescente), que se fazia visível ao pôr-do-sol do dia da conjunção ou dos dias subseqüentes. Filo de Alexandria (20 a.C – 50 d.C) afirma que ‘’no tempo da lua nova, o sol começa a iluminar a lua como uma luz que é visível aos sentidos, e então ela expões sua própria beleza aos observadores’’ (Philo, The Works of Philo, Complete and Unabridged, New updated edition, 1º Ed. [Peabodym NA: Hendrickson Publishers, Inc., 1993], 572, tradução nossa).

4– Exodo 9:31 e 32; Rute 1:22; 2:23; e II Samuel 21:9 e 10 confirmam que a cevada era o primeiro grão a amadurecer no Egito e na Palestina. Essa é a razão pela qual foi escolhida para compor o feixe das primícias. Tanto Filo de Alexandria quanto Flávio Josefo se referem ao molho dos primeiros frutos da cevada (Philo, The Works of Philo, 584; e Flavius Josephus, Antiquites of the Jews, livro 3, caítulo 10, artigo 5, em The Works of Josephus, Compleste and Unabridged, New updated edition [Peabody, MA: Hendrickson Publishers, Inc, 1987], 96).

5– ‘’A razão’’ para isso ‘’é que as plantas usam seus relógios para sentir as estações, por meio do comprimento do dia, garantindo que as flores nasçam no tempo certo do ano. Algumas plantas, tais como o trigo, florescem quando os dias ficam mais longos. Outras, tais como a cevada, florescem quando os dias encurtam.’’ (‘’Molecules to Make Plants Tick.’’ New Scientist, nº 1967 [Londres: Reed Business Information Ltd, 4 de março de 1995], 30, tradução nossa). A Bíblia se refere aos frutos como ‘’aquilo que o sol amadurece’’ (Dt 33:14), o que está em perfeita harmonia com a prática agrícola e com o testemunho da ciência.

6- Momento do ano em que a luz solar atinge os hemisférios norte e sul com o mesmo ângulo de incidência.

7– Outras fontes antigas que também situam os meses judaicos mais tardiamente dentro do ano solar que o ciclo rabínico incluem os papiros encontrados na colônia judia de Elefantina e os escritos de Eusébio de Cesaréia. Infelizmente, o espaço deste artigo não permite que tais fontes sejam apresentadas e discutidas aqui. Uma análise mais completa do assunto será disponibilizada em breve no site http://www.concertoeterno.com .

8– Edward M. Reingold; Nachum Dershowitz, Calendrical Calculations, disponível em http://emr.cs.iit.edu/home/reingold/calendar-boo/first-edition. Já está disponível também numa nova versão: HTTP://emr.cs.iit.edu/home/reingold/calendar-book/secondedition. Acessado em 01/03/2007.

9– Roy E. Hoffman, Luna Cal 3.0 Beta 3, compatível com Windows 95, 98, Me, NT4-SP3 ou maior, 2000 e XP, disponível em HTTP://www.geocities.com/royh_il/software.htm, acessado em 01/03/2007.

10– Maris Multimedia, Ltd, Redshift 2.0, compatível com Windows 3.1, 95 ou mais avançado, Macintosh e Power Macintosh. Redshift 2.0 utiliza a teoria orbital D.E 106. A precisão do software pode ser aferida pela comparação de suas eremérides com as fornecidas pelo site do Jet Propulsion Laboratory (Laboratório de Jato Propulsão da NASA: HTTP://www.jpl.nasa.gov), que utiliza a D.E. 406: HTTP://ssd.jpl.nasa.gov/horizons.cgi. Acessado em 01/03;2007.

11– Kerry Shetline, Sky View Café 4.0 Beta, disponível em http://www.skyviewcafe.com/skyview.php, acessado em 01/03/2007.

12– Abraham J. Sachs, Astronomical Diaries and Related Texts from Baylonia – completado e editado por Herman Hunger, vol.1 (Viena: Verlag der Osterreichischen Akademie der Wissenschaften, 1988), 47.

13– Richard A. Parker; e Waldo H. Dubberstein, Babylonian Chronology, 626 B.C – A.D. 75, ‘’Brown University Studies’’, vol. 19 (Providence, R.I: Brown University Press, 1956). Esta obra é uma referência padrão para historiadores, astrônomos e cronológicos. Lista os documentos cuneiformes que servem de base para a determinação do início e do fim dos reinados dos soberanos babilônicos, persas e sírios, desde Nabopolassar até a anexação da Síria pelo Império Romano. Lista também os documentos que atestam a ocorrência de mês intercalar até a época de Artaxexes II. Além disso, apresenta uma reconstrução provável do calendário babilônico-persa, com a indicação do primeiro dia de cada mês, no intervalo que se estende de 626 a.C a 75 d.C.

14– Flavius Josephus, The Antiquities of the Jews, livro 7, capítulo 14, parágrafo 7, em The Works of Josephus, 208.

15- ‘’… e não tivesse sido nossa prática, dos dias de nossos antepassados, de descansar no sétimo dia, esse empreendimento não poderia ter sido realizado, em razão da oposição que os judeus teriam feito; porque nossas leis permitem nos defendemos contra aqueles que começam a lutar conosco e nos assaltar, entretanto não permitem nos intrometermos com nossos inimigos enquanto eles fazem outra coisa. Quando os romanos entenderam isso, naqueles dias que eram chamados ‘’sábados’’, eles não lançavam nada contra os judeus, nem vinham para nenhuma batalha que lhes era travada, mas erguiam suas plataformas, e traziam suas máquinas para servirem-se delas nos dias seguintes. (...) a cidade foi tomada no terceiro mês, no dia do jejum, na centésima septuagésima nona olimpíada, quando Caius Antonius e Marcus Tullius Cícero eram cônsules (Flavius Josephus, The Antiquities of the Jews, livro 14, capítulo 4, parágrafo 3, em The Works of Josephus, 369, tradução nossa).

16– Atos 27:9 se refere ao ‘’tempo do jejum’’. De acordo com Levítico 16:29 e 31; e 23:27, 29 e 32, no dia da expiação os judeus deviam ‘’aflingir as suas almas’’, o que se aplica particularmente ao jejum (ex: Sl 35:13 e Is 58:3, 5 e 10). Sobre a prática do jejum no dia da expiação, Josefo declara: ‘’Entretanto, o sumo sacerdote não usava essas vestimentas em qualquer momento, mas (apenas) um vestuário mais simples; ele somente as usava quando El entrava na parte mais sagrada do templo, uma só vez no ano; no dia em que o costume é que todos observem um jejum para Deus.’’ (Flavius Josephus, The Wars of the Jews, livro 5, capítulo 5, parágrafo 7, em The Works of Josephus, 708, tradução nossa). Ver também The Antiquities of the Jews, livro 17, capítulo 6, parágrafo 4; e livro 3, capítulo 10, parágrafo 2 e 3.

17– Dio Cassius, Roman History, vol. 5, livro 49, capítulo 22, artigo 7, Loeb Classical Library, disponível em HTTP://www.penelope.uchicago.edu/thayer/e/roman/texts/cassius_dio/49.html., acessado em 01/03/2007.

18– Em 63 a.C, o dia da expiação (23/24 de outubro) ocorreu 28 dias depois do equinócio do outono, que naquele ano caiu em 26 de setembro. Em 1844, o dia da expiação (22/23 de outubro) ocorreu 31 dias depois do equinócio do outono, que naquele ano caiu em 22 de setembro.

19– Flavius Josephus, The Wars of the Jews, livro 4, capítulo 11, artigo 4, em The Works of Josephus, Complete and Unabridged. New updated edition. (Peabody, MA: Hendrickson Publishers, Inc. 1987), 695.

20 – E. J. Bickerman, Chronology of the Anciest World, ed. Rev (Londres: Thames and Hudson, 1980), 207.

21– Babylonian Talmud, Rosh Hashanah 21a, disponível em http://www.sacred-texts.com/jud/index.htm, acessado em 01/03/2007.

22– Kenneth F. Doing, New Testament Chronology (Lewiston, NY: Edwin Mellen Press, 1990).

23– A não ocorrência de 1º de nisan em data tão baixa quanto 15 dias antes do equinócio pode ser atestada por um exame cuidadoso das tabelas das páginas 27-47 de Babylonian Chronology, para o calendário babilônico-persa, e 157-159 de The Chronology of Ezra 7 (Siegfried H. Horn; e Lynn H. Wood, The Chronology of Ezra 7, 2º Ed, ver. [Washington, DC: Review and Herald Publishing Association, 1970]), para o calendário judaico em Elefantina [Egito]. No period abrangido por essas tabelas, as datas realmente relevantes são aquelas em que a intercalação do décimo terceiro mês está devidamente documentada por algum achado arqueológico. No caso de Babylonian Chronology, o catálogo dos documentos cuneiformes que identificam os anos em que os meses intercalares foram inseridos ocorre nas páginas 4-9.

24– ‘’A prática de determinar o Ano Novo de acordo com o Abib [cevada madura] é tão velha como a Torah. Nos tempos antigos, como hoje, havia uma necessidade de anunciar que o abib fora encontrado, especialmente para aqueles no exílio, e vários relatórios de abib antigos têm sobrevivido. O mais antigo relatório de abib remanescente data da última geração do período do segundo templo e é citado no Talmude. Já que este relatório antigo é um relatório rabínico de abib, ele reflete a misturas dos fatores de abib e de [outros fatores] não-bíblicos dessa seita. O relatório diz: ‘’Pois tem sido ensinado: aconteceu uma vez que o mestre Gamaliel estava sentando num degrau do Monte do Templo, e o bem conhecido escriba Yohanan estava em pé diante dele com três folhas cortadas postas na sua frente. O mestre Gamaliel disse: tome a terceira folha e escreva para nossos irmãos, os exilados da Babilônia e para aqueles na Média, e para todos os outros filhos exilados de Israel, dizendo: ‘’Que sua paz possa ser grande para sempre” Pedimos para informar que as pombas ainda estão tenras e os cordeiros ainda estão muito jovens e o abib ainda não está maduro. Parece aconselhável para mim e para meus colegas adicionar trinta dias para este ano’’ (tradução nossa). Ancient Abib Reports, disponível no site oficial do movimento caraíta: HTTP://www.karaite-korner.org, acessado em 01/03/2007.

25– Sacha Stern é doutor em Filosofia na aera de Estudos Judaicos pela Universidade de Oxford e chefe de Departamento da London School of Jewish Studies. Para maiores informações biográficas sobre o Dr. Sacha Stern, ver o seguinte endereço: HTTP://www.ucl.ac.uk//hebrew-jewish/aboutus/stern.php. acessado em 01/03/2007.

26– Disponível em www.oxfordsholarship.com/oso/public/content/religion/9780198270348/toc.html, acessado em 01/03/2007. O acesso ao conteúdo completo do livro é pago.


27– J. Neumann e S. Sigrist, Harvest dates in ancient mesopotâmia as possible indicators of climatic variations, disponível em www.springerlink.com, acessado em 01/03/2007. O acesso ao conteúdo do artigo é pago.

28– Robert K. Sanders, Day of Atonement of the Karaite Jews in 1844, disponível em http://www.truthorfables.com/Day_of_Atonement_of_the_Karaite.htm, acessado em 01/03/2007.

29– Que os mileritas não dispunham de informação específica acerca da situação da cevada em Jerusalém no ano de 1844, fica evidente pelo exame da literatura adventista da época: ‘’Neste ano, a primeira lua cheia veio em 3 de abril; e se então a cevada estava madura, e a páscoa verdadeira foi então celebrada; ou se não foi observada até a lua seguinte, nós não temos meios certos de saber. Como a primeira lua cheia veio tarde este ano, é provável que os Caraítas observaram a páscoa então, a menos que a cevada estivesse mais tardia que o comum. Se foi assim, segue-se que nós em breve estaremos no sétimo mês’’ (Advent Herald, 11 de setembro de 1844, tradução e grifo nossos). ‘’É algo extraordinário que a páscoa, neste ano, deva ter sido celebrada em 4 de maio, de acordo com o cômputo que nós temos adotado, baseado na crença de que o calendário rabínico está um mês mais cedo’’ (Midnight Cry, 7 de novembro de 1844, tradução e grifo nossos. Como o tempo, quando a colheita amadurecia, deve variar segundo a temperatura da estação, e outras circunstâncias, é óbvio que, para definir quando o primeiro mês caraíta começou, nós devemos saber em que período a seara da cevada estava madura em Jerusalém em 1844. Se nós tivermos esse fato, então nós podemos saber quando o sétimo mês começou, e, certamente, com que dia em nosso calendário o décimo dia coincidiria. Mas, não será dada a impressão de que, antes de outubro pultimo, nós tínhamos recebido qualquer informação quanto ao período da colheita da cevada em jerusalém’’ (The Morning Watch, 6 de março de 1845, tradução e grifo nossos).

30– Ellen G. White também estava ciente de que são as datas de meio (batismo e morte de Jesus) que sustentam as datas de início e de fim do esquema cronológico de Daniel 8:14 e 9:24-27. Depois de falar do batismo e da crucifixão de Cristo, bem como do apedrejamento de Estevão, Ellen g. White afirma: ‘’Até aqui, cumpriram-se de maneira surpreendente todas as especificações das profecias e fixa-se o início das setenta semanas, inquestionavelmente, no ano 457 a.C e seu termo no ano 34 de nossa era. Por estes dados não há dificuldade em se achar o final dos 2.300 dias. Tendo sido as setenta semanas 490 dias separadas dos 2.300 dias, ficaram restando 1.810 dias. Depois o fim dos 490 dias os 1.810 dias deveriam ainda cumprir-se. Contando do ano 34 de nossa era, 1.810 anos se estendem a 1844. Conseqüentemente, os 2.300 dias de Daniel 8:14 terminam em 1844. Ao expirar este grande período profético, ‘’o santuário será purificado’’, segundo o testemunho do ano de Deus. Deste modo foi definitivamente indicado o tempo da purificação do santuário, que quase universalmente se acreditava ocorresse por ocasião do segundo advento’’ (Ellen G. White, O Grande Conflito, 36º Ed. [Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988] 328).

31– M. L. Andreasen, Letters to the Churches (Payson, AZ: Leaves of Autumm Books, Inc.), 39. Disponível em http://br.geocities.com/cartas_andreansen, acessado em 01/03/2007.

32– Visto que a duração do ministério de Cristo foi de 3,5 anos (Dn 9:27 e Lc 13:6-9) e que o ano 26 d.C é a data mais recuada no tempo em que o mesmo poderia ter iniciado (na verdade, o ministério de Cristo começou no outono de 27 d.C), podem ser excluídas como opções para o ano da crucifixão as datas de 26, 27, 28 e 29. Dos anos restantes da administração de Pilatos (26 d.C-36 d.C), apenas o ano 31 d.C admite um 15 de nisan numa sexta feira. Os anos 30 d.C e 33 d.C, que tem sido sugeridos por autores católicos e protestantes, admitem um 14 de nisan, mas de maneira alguma um 15 de nisan, numa sexta feira.

33– Todos os anos do ministério de Jesus estão inseridos no governo de Pôncio Pilatos (Lc 3:1,2,21 e 22; 23:1-7; e 13-25). De acordo com Flávio Josefo, Pilatos governou a Judéia por dez anos, sendo depois enviado a Roma para se justificar perante Tibério dos maus tratos infligidos aos samaritanos: ‘’Mas quando esse tumulto foi acalmado, o senado samaritano enviou uma embaixada a Vitélio, o qual a tinha sido Cônsul, e que era agora o governador da Síria, e acusou Pilatos de assassinato; pois eles não foram a Tirathaba a fim de se revoltar contra os romanos, mas para escapar da violência de Pilatos. Então Vitélio enviou Marcelo, um amigo seu, para cuidar dos negócios da Judéia, e ordenou que Pilatos fosse a Roma, para responder perante o imperador pela acusação dos judeus. Assim, Pilatos, quando tinha completado dez anos na Judéia, apressou-se para Roma, e isso em obediência às ordens de Vitélio, que ele não ousou contradizer; mas antes que pudesse chegar a Roma, Tibério havia morrido’’ (Flavius Josephus, Antiquities of the Jews, livro 18, capítulo 4, artigo 2, em The Works of Josephus, 482, tradução e grifo nossos). Suetônio, historiador romano do primeiro século, informa que Tibério ‘’morreu... com setenta e oito anos de idade e vinte e três de reinado, aos dezessete dias antes das calendas de abril, sob o consulado de Cnéio Acerrônio Próculo e de Caio Pôncio Nigrino exerceram seu consulado em 37 d.C. O décimo sétimo dia antes das calendas de abril é 16 de março. Portanto, a morte de Tibério ocorreu em 16 de março de 37 d.C. Levando em consideração a distância existente entre Jerusalém e Roma e que Tibério já havia morrido quando Pilatos chegou à cidade imperial, o término de seu governo pode ser situado no final de 36 d.C ou no começo de 37 d.C. Como ele esteve à frente dos negócios da Judéia por dez anos, o início de sua administração pode ser fixado no final do ano 26.

34– Alguns tem interpretado erroneamente certas declarações do evangelho de João e sugerido que a crucifixão tenha ocorrido em 14 de nisan, porém os sinóticos não deixam dúvida de que a data correta é 15 de nisan. Seguindo o ritual prescrito pela lei, os discípulos prepararam a páscoa na tarde de quinta feira (14 de nisan) e a comeram depois do pôr-do-sol, já nas primeiras horas da sexta feira bíblica (15 de nisan). Ver Mateus 26:17 e 20; Marcos 14:12-17; e Lucas 22:7 e 14. A expressão ‘’preparação da páscoa’’ em João 19:14 se refere simplesmente à sexta feira da semana da páscoa, pois o dia que precedia o sábado era conhecido como ‘’dia da preparação’’ (Mt 27:62, 28:1 e Lc 23:54-56, Ex 16:5, 22, 23 e 29). O sábado após a morte de Cristo pode ter sido considerado um ‘’sábado grande’’ (Jo 19:31) apenas por ter ocorrido dentro da semana dos pães asmos e não devido a uma suposta sobreposição de um sábado semanal com uma festa cerimonial. Por fim, João 18:28 não precisa ser interpretado em desarmonia com os sinóticos, no sentido de que a páscoa teria sido celebrada na noite de sexta para sábado, pois talvez os sacerdotes não tivessem participado da ceia por terem estado envolvidos na prisão e julgamento de Jesus e ainda pensassem em comê-la antes que o dia avançasse. Jesus deixou claro que aquela refeição de quinta-feira à noite era uma ceia pascal (Lc 22:15). Para a crucifixão ocorresse em 14 de nisan, Jesus deveria ter antecipado a celebração da ceia, o que Ele não estava na liberdade de fazer, pois veio para cumprir a lei (Mt 5:17 e 18; e Gl 4:4). ‘’Após examinar criteriosamente todo esse problema, Robinson declarou qual a sua conclusão a respeito: ‘’Após repetida e calma consideração, na minha mente repousa a firme convicção de que nada existe, na linguagem do evangelho de João, ou nas circunstâncias das próprias ocorrências que, após uma bem equilibrada interpretação, requeira ou permita que creiamos que o discípulo amado tenha tencionado ou corrigir ou contradizer o testemunho explícito e inquestionável de Mateus, Marcos e Lucas (o testemunho de que Jesus e seus discípulos comeram a refeição da páscoa no dia regular, conforme citado no Lange’s Comementary, in loc.)’’ (Russell Norman Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo [Guaratinguetá, SP: Sociedade Religiosa A Voz Bíblica Brasileira], 600). A suposição de que a morte de Cristo tinha de ocorrer no mesmo dia em que o cordeiro pascal era imolado é apressada e superficial, pois Cristo também era representado por todos os outros animais sacrificados no cerimonial judaico, mas nem por isso, por exemplo, Ele teve de ser crucificado no dia da expiação, quando o bode expiatório era imolado. Ellen G. White confirma que ‘’no dia em que a páscoa era comida, Ele (Cristo) devia ser sacrificado’’ (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, 19º Ed. [Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1995], 642, grifo nosso). A páscoa era comida já no dia 15 de nisan, que foi, portanto, a data judaica da crucifixão. Uma discussão mais exaustiva do assunto, inclusive quanto ao cumprimento antitípico do festival das primícias, símbolo da ressurreição de Cristo, o qual era celebrado ‘’no dia imediato ao sábado’’ (Lv 23:12), o primeiro dia da semana, pode ser encontrada no site HTTP://www.concertoeterno.com ou no livro Chronological Studies Related to Daniel 8:14 and 9:24-27.

35– Mateus 27:62; Marcos 15:42 (ver também 16:1 e 2); Lucas 23:54, 24:1; e João 19:14 e 31 atestam que a crucifixão ocorreu numa sexta feira, cujo nome bíblico era o ‘’dia da preparação’’. Ver Êxodo 16:22-30.

36– Sky and Telescope Magazine (Cambridge, MA: New Tract Media Company). Disponível também em versão online, no endereço: http://skyandtelescope.com acessado em 01/03/2007.

37– O azimute do sol era de 279º16’31’’ e o da lua, de 276º6’54’’, sendo a diferença azimutal, portanto, de 3º9’37’’. A altitude da lua era de 11º28’47’’. A lua estava abaixo do limite de visibilidade.

38– Visto que o calendário judaico depende tanto do sol (por causa do amadurecimento da cevada, essencial para a festa das primícias) quanto da lua (por causa do início do mês na lua nova), os conceitos e valores de ano solar e de mês lunar (lunação) devem ser aplicados aos períodos proféticos, pois estes estão atrelados às datas de festas judaicas (15 de nisan e o 10 de tishri), fixadas na base do sistema lunissolar. Os valores do ano trópico (solar) e do mês sinódico (lunar) são fornecidos pelo The Astronomical Almanac for the Year 1995 (Washington, DC: Nautical Almanac Office of the United States Naval Observatory. Londres: Her Majesty’s Nautical Almanac Office of the Royal Greenwich Observatory).

39– Em outras palavras, isso quer dizer que uma data do calendário judaico só volta a coincidir com o mesmo ponto do ano solar após um período de 19 anos. Exemplo: se, num determinado ano, 1º de nisan cair em 21 de março (equinócio atual), o mesmo só se repetirá 19 anos depois. Isso ocorre porque 19 anos solares possuem praticamente o mesmo número de dias de 235 meses lunares, que é o total de lunações presentes em 19 anos. A diferença é mínima: um excesso de 0,08685 dia (ou de 2,0844 horas) do ciclo lunar sobre o ciclo solar.

40– Em cada ciclo de 19 anos, 12 anos são de 12 meses e 7, de 13. Logo, 19 anos lunissolares perfazem 235 meses lunares (12 x 12 + 7 x 13 = 235).

41– Em 2.300 anos, há 121 ciclos completos de 19 anos e mais 12 meses lunares. Após 2.299 anos (que correspondem aos 121 ciclos), a diferença de + 2,0844 horas se acumula em + 10,50885 dias (2,0844 x 121 = 252,2124 : 24 = 10,50885). Isso significa que o esquema puramente solar. No entanto, avançado mais um ano (os 12 meses de sobra), essa diferença é corrigida, pois o ano puramente solar é cerca de 10 dias maior que o ano lunar (354,36708 – 365,2422 = - 10, 87512).

42– Foi na noite anterior à crucifixão que Jesus exclamou: ‘’Pai, é chegada a hora’’ (Jo 17:1). Foi também nessa noite que Jesus confirmou sua decisão de se oferecer pela raça pecadora (O Desejado de Todas as Nações, 690 e 693). Ellen G. White também enfatiza a noite como ponto decisivo: ‘’A morte do cordeiro pascal era sombra da morte de Cristo. Diz Paulo: ‘ Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós’ (1 Co 5:7). Aqueles símbolos se cumpriram, não somente quanto ao acontecimento mas também quanto ao tempo. No dia catorze do primeiro mês judaico, no mesmo dia e mês em que, durante quinze longos séculos, o cordeiro pascal havia sido morto, Cristo, tendo comido a páscoa com os discípulos, instituiu a solenidade que deveria comemorar sua própria morte como o ‘’Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’’. Naquela mesma noite Ele foi tomado por mãos ímpias, para ser crucificado e morto’’ (O Desejado de Todas as Nações, 399, grifo nosso). Daniel 9:27 afirma que no ‘’meio da semana’’ o Ungido faria ‘’cessar o sacrifício e a oferta de manjares’’. Na Ceia pascal, ‘’Cristo se achava no ponto de transição entre dois sistemas e suas duas grandes festas’’ (O Desejado de Todas as Nações, 652, grifo nosso). Ellen G. White também assevera que ‘’quando comeu a páscoa com seus discípulos, Ele pôs um fim aos sacrifícios que por quatro mil anos tinham sido oferecidos’’ (Ellen G. White, em The Seventh-day Adventist Bible Commentary, 5:1139, Ed.rev. [Washington, DC: Review and Herald, 1976], tradução e grifo nossos).

43– O período Juliano, que nada tem a ver com o calendário Juliano, consiste numa escala, idealizada pelo astrônomo Joseph Scaliger, cujo objetivo é individualizar cada momento por um número diferente. Assim, meio dia (12h) de 1º de janeiro de 4713 a.C é identificado pelo número 0,0000; 12h01 desse mesmo dia já é representado pelo número 0,0007; 12 h do dia 2 de janeiro tem como designação o número 1,000. Para se obter a data Juliana de um dado momento, pode-se utilizar o excelente programa de conversão disponível neste endereço: http://aa.usno.navy.mil/data/docs/Julian-Date.html, acessado em 01/03/2007.

44– O The Seventh Day Adventista Bible Commentary, vol. 3, p. 108 e 109, reproduzindo as tabelas de Horn (p.158) e de Parker e Dubberstein (p.32), situa o mês de tishri em setembro e não em outubro no ano de 457 a.C. Evidentemente, essa opção não se coaduna com o Yom Kippur em 22/23 de outubro no ano de 1844, pois o término dos 2.300 anos nessa data data requeriria que o início do período também tivesse ocorrido num mês de outubro. Todavia nem Horn, nem Parker e Dubberstein apresentam qualquer documentação contemporânea para fundamentar sua opção por um tishri em setembro no ano de 457 a.C. Existe a possibilidade de que um décimo terceiro mês tivesse sido intercalado no final do ano babilônico correspondente a 457/458 a.C, deslocando tishri para um mês mais tarde em 457 a.C. A sugestão de Parker e Dubberstein quanto a um mês intercalar no final do ano babilônico correspondente a 457/456 a.C não está amparada em documentação da época. Por outro lado, para os anos 14 [591/590 a.C] e 33 [572/571 a.C] de Nabucodonosor (p.28) e 3 [553/552 a.C] de Nabonido (p.29), que correspondem ciclicamente a 458/457 a.C (a cada 19 anos, as datas do esquema lunar voltam a ocupar praticamente a mesma posição dentro do ano solar), Babylonian Chronology apresenta documentação arqueológica para a inscrição de mês intercalar que justifique um tishri em outubro e não em setembro de 457 a.C. Há, pois, razoável apoio documental na cronologia babilônica das épocas de Daniel e de Jesus para se posicionar o mês de tishri em outubro, no caso, de 1844.

45– A hora do sacrifício da tarde ocupada posição de destaque na história bíblica, pois nela ocorreram eventos particularmente importantes, dentre os quais podem ser citados, a título de exemplificação, o sacrifício do cordeiro pascal (Êx 12:6), o fogo que desceu do céu sobre o altar de Elias ( 1 Reis 18:26, 27, 29, 36 e 38), a revelação das 70 semanas (Dn 9:21) e o fim da agonia de Jesus sobre a cruz (Mt 27:46, 47 e 50). A ‘’visão do milharal’’ possivelmente ocorreu no mesmo momento do sacrifício da tarde em Jerusalém, pois a diferença de sete fusos horários faz com que as 8h da manhã em Boston (ou 7 h em Port Gibson, onde Edson vivia) correspondam às 15 h em Jerusalém. Em Jerusalém, o 10 de Tishri se estendeu do pôr-do-sol do dia 22 ao pôr-do-sol do dia 23 de outubro. Em Boston, o dia da expiação, calculado pelo horário de Jerusalém, estendeu-se de cerca de 10h15 de manhã do dia 22 a cerca de 10h15 da manhã do dia 23 de outubro [vale lembrar que o sistema de fusos horários, como é conhecido hoje, dividindo o mundo em 24 zonas, de 15º cada, só foi proposto em 1878 e aceito internacionalmente depois de 1884]. Portanto, nos EUA, o dia da expiação calculado por Jerusalém ocorreu mais para dentro do dia 22 do que do dia 23. O ponto alto do dia da expiação era o sacrifício da tarde, quando o sumo sacerdote, tendo completado o ritual prescrito para a purificação do santuário, saía e abençoava o povo. É bem apropriado, pois, que as 2.300 tardes e manhãs se estendam do meio da tarde do dia 10 de tishri em 457 a.C ao meio da tarde de 10 de tishri em 1844.

46– Segue-se o trecho do manuscrito de Hiram Edson que descreve a experiência ‘’Nossas expectativas eram muito grandes, e assim estivemos esperando a vinda de nosso Senhor até que o relógio badalou as 12 batidas da meia-noite. O dia havia acabado e nosso desapontamento tornou-se uma certeza. Choramos e choramos até o amanhecer. Comecei a sentir que deveria haver luz e ajuda em nossa angústia presente. Disse a alguns irmãos: ‘’vamos ao galpão’’. Entramos no celeiro, fechamos as portas e nos inclinamos diante do Senhor. Oramos ferventemente porque sentíamos nossa necessidade. Depois do desjejum disse a um de meus irmãos: ‘’Vamos visitar e animar alguns de nossos irmãos.’’ Assim o fizemos, e fui detido na metade de um campo extenso, que cruzávamos. O céu pareceu abrir-se diante de mim, e vi distinta e claramente que, em vez de nosso sumo sacerdote ter saído do santíssimo do santuário celestial para vir à Terra no décimo dia do sétimo mês, no término do 2.300 dias, neste dia. Ele havia entrado pela primeira vez no segundo compartimento desse santuário, e que Ele teria uma obra a fazer no lugar santíssimo antes de vir à Terra. Nesta data, Ele havia entrado nas bodas, em outras palavras, diante do Ancião de Dias, a fim de receber um reino, domínio e glória; e que nós devemos esperar por seu retorno das bodas, e minha mente foi dirigida para o capítulo 10 de Apocalipse; onde eu pude ver que a visão havia falado e não mentiu; o sétimo anjo havia começado a fazer soar sua trombeta; nós tínhamos comido o livrinho; tinha sido doce em nossa boca, e agora tinha se tornado amargo em nosso estômago, amargando todo o nosso ser. Que nós devemos profetizar outra vez, etc..., e que quando o sétimo anjo começou a tocar, o templo de Deus foi aberto no céu, e lá foi vista em seu templo a arca de seu testamento, etc. Enquanto eu me encontrava parado no meio do campo, meu companheiro havia seguido caminhando quase mais que o alcance da voz, antes de perceber que eu não o acompanhava. Quando me perguntou por que me havia detido por tanto à nossa oração matutina, dando-nos luz sobre o desapontamento.‘’ Fragmento de um manuscrito não datado de Hiram Edson, mantido no Heritage grifo nossos, disponível na internet no endereço: HTTP://www.sdadefend.com/sdadefend-old/oct22.htm acessado em 01/03/2007.


Herderson Hermes Leite Veltes (Autor do Artigo)
Juarez Rodrigues de Oliveira (Autor da Pesquisa que Subsidiou o Artigo)

 

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
©Design adaptado e traduzido por Herbert de Carvalho
Desenvolvido em Joomla